Cidades Sustentáveis

Cidades Sustentáveis

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Os caminhões de operários vinham de toda parte do Brasil querendo colaborar, pensando que iam encontrar a terra da promissão, e estão lá nas cidades satélites, tão pobres quanto antes. Não basta fazer uma cidade moderna; é preciso mudar a sociedade. Isso é que é importante.
OSCAR NIEMEYER


No ano de 2010 o mundo tornou-se urbano, quando mais de 50 % da população mundial passou a viver em cidades. Apesar de possuírem somente 2 % da área do planeta, as cidades abrigam mais de 50 % da população mundial. Esse é mais um fator de pressão contra os já escassos recursos naturais do planeta.

Uma cidade se forma pelo trabalho coletivo de sua população. Nos centros urbanos materializa-se a rica história de um povo, suas relações sociais, políticas, econômicas e religiosas, que só se concretizam na diversidade que a vida nas cidades proporciona. A fotografia de uma cidade é a fotografia de uma sociedade.

Historicamente, as cidades cresceram e prosperaram em locais onde a geografia, o clima e outros atributos naturais eram mais favoráveis. As cidades somente podem continuar a prosperar resguardando os recursos naturais, que são os pilares centrais de suas economias e da sua qualidade de vida. Cidades mal administradas contribuem cada vez mais com as severas preocupações ambientais globais.

A indústria reforça o desfecho dado pela lavoura quando transfere geograficamente o núcleo produtivo do campo para o meio urbano. Formam-se os movimentos de migração em massa, que provocam o caos nas grandes cidades. O crescimento descontrolado da população urbana demanda serviços, equipamentos públicos, transportes, comércio, tecnologia e causa uma série de transtornos à dinâmica das cidades.

As cidades surgiram no interior das sociedades agrícolas no ano 2.000 A.C., no Egito. Na idade média, devido ao comércio praticado a longa distância, as cidades adquiriram a feição de entreposto comercial. No século XIX, a Revolução Industrial trouxe um novo conceito: a qualidade de vida já ameaçada pela poluição gerada pelas fábricas na Europa.

No início do século XIX, Londres era a única cidade que atingia a população de um milhão de habitantes. Em 2005, contabilizaram-se 15 megacidades, ou seja, agrupamentos com mais de 10 milhões de habitantes, e em 2025, segundo dados da ONU, serão 22 em todo o mundo. A cidade moderna torna-se um polo concentrador de comércio, serviços e informações. Ela passa a ser o principal espaço de consumo e circulação de riquezas produzidas no campo.

Muitos acreditam que os países em desenvolvimento podem reproduzir a transição das economias rurais predominantemente agrárias para economias urbanas industriais seguindo a trajetória do que ocorreu na Europa Ocidental. Milhões de camponeses europeus atravessaram o Atlântico desde meados do século XIX em direção às Américas.

Com a crescente mecanização da lavoura faz-se necessário repensar formas de fixação do homem no campo. Os camponeses são habilitados a fazer serviços ambientais essenciais, zelar pelas paisagens e recursos naturais como solos, águas, florestas e clima. Remunerar esses serviços de forma justa irá desacelerar o êxodo rural e evitar inchaço das já degradadas áreas urbanas de grandes centros.

Ainda não existe uma cidade que possa ser considerada totalmente sustentável. Mas imagina-se que, até 2020, várias poderão vir a ser. Começa a nascer o conceito de ecocity – uma cidade pensada para ser inteiramente sustentável, como Dongtan, na China. A primeira fase do projeto, pronta em 2010, contemplará 10 mil moradores. Até 2050, 500 mil habitantes devem mudar-se para lá. Os prédios vão consumir menos água e energia, gerada em usinas solares e eólicas, e reciclar até 80% do lixo. O planejamento urbano em pequenos núcleos favorecerá deslocamentos a pé ou de bicicleta.

As cidades são um ecossistema criado para a mútua realização dos seus habitantes, onde tudo está inter-relacionado e tudo é interdependente. Elas nasceram para facilitar a troca de informações, amizade, bens materiais, cultura, conhecimento, intuições, habilidades, e também troca de apoio emocional, psicológico e espiritual.


Mas o que caracteriza uma cidade sustentável?
É o direito de todos os habitantes à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para a presente e futuras gerações.

Para muitos autores, no entanto, o conceito de cidade sustentável encerra uma contradição insolúvel. As cidades são, por definição, sistemas complexos que dependem de fatores externos. O princípio da sustentabilidade, por sua vez, está associado à auto-suficiência, implicando o consumo e a eliminação de resíduos no mesmo espaço.

Dessa forma alguns especialistas entendem que as cidades nunca foram nem serão sustentáveis. A cidade tornou-se rapidamente o principal habitat da humanidade. O acesso a emprego, serviços, equipamentos públicos e a um maior bem-estar social e económico é o seu maior atrativo.

Se grande parte dos problemas ambientais globais têm origem nas cidades e/ou nos seus modos de vida, dificilmente se poderá atingir a sustentabilidade ao nível global sem torná-las sustentáveis. É nas cidades que as dimensões social, econômica e ambiental do desenvolvimento sustentável convergem mais intensamente Assim, torna-se necessário que sejam pensadas, geridas e planejadas de acordo com um modelo de desenvolvimento sustentável.

Cidades sustentáveis são locais que possuem uma política de desenvolvimento para promover o meio ambiente natural. Tem como diretriz a ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar degradação dos recursos naturais. Há um conjunto mínimo de critérios e elementos comuns para esses locais que aparecem em praticamente todos os modelos de planejamento urbano, expresso em planos diretores.

Um elemento importante é a construção de plataformas de sutentabilidade, monitorada por indicadores que irão mensurar e dar os caminhos, prazos e metas de desenvolvimento de excelência. Plataformas com políticas claras e abrangentes de saneamento, coleta e tratamento de lixo; gestão das águas, com coleta, tratamento, economia e reuso; sistemas de transporte que privilegiem o transporte de massas com qualidade e segurança; ações que preservem e ampliem áreas verdes e uso de energias limpas e renováveis; modelos educacionais que capacitem e valorizem o educador; enfim, administração pública transparente e compartilhada com a sociedade organizada.

Toda cidade tem que ter um bom plano de adaptação às mudanças climáticas, principalmente aquelas afetas a eventos extremos. Cidades costeiras devem ter planejamento contra maremotos e elevação do nível dos oceanos. Cidades dos interiores devem se preocupar com deslizamentos em encostas, enchentes, ondas de calor e frio. Enfim, ter flexibilidade e adaptabilidade às novas exigências climáticas (terremotos, vulcões e outros elementos físicos), sem congelar suas estruturas. As coisas mudam rapidamente e as cidades têm que ter a capacidade de resiliência.

Grandes conglomerados urbanos invadiram e violentaram o espaço da geografia natural. No Rio de Janeiro e em muitas grandes cidades do mundo, morros inteiros foram ocupados por construções irregulares e inseguras. Há que se redesenhar o crescimento urbano de forma a integrá-lo com a geografia natural, como reativar margens de rios e recuperar matas ciliares, para que a cidade se torne menos arredia e não receba uma resposta hostil do ambiente natural.

Deve-se revitalizar os centros das grandes cidades para que se tornarem um espaço de convivência pacífica e confortável. São locais dotados de boa infra-estrutura, pouco utilizados e às vezes esvaziados. A população está envelhecendo e tornando-se mais madura e ativa. O novo velho tem vigor físico e intelectual, trabalha, tem mobilidade, busca e pratica qualidade de vida.

A formação e manutenção de bairros menores e autosuficientes devem constar de planos diretores, para evitar a expansão urbana desenfreada no território. Dar prioridade ao adensamento e desenvolvimento urbano no interior dos espaços construídos, com a recuperação dos ambientres degradados.

São todos grandes projetos que exigem vultosos recursos que acabam por criar atividades geradoras de emprego, renda e bem-estar mas ao mesmo tempo desequilíbrios na utilização inadequada dos espaços. Buscar viver no ponto de equilíbrio é o grande desafio de concentraçõers humanas que desejam a sustentabilidade e sonham em ser cidades verdes. Isto que é importante!


Texto enviado via e-mail por Rodnei Vecchia (Autor do livro "O Meio Ambiente e as Energias Renováveis") às 19:19 em 05/09/2011.