Cila

Glauco; um deus marinho de barba verde-acinzentada, largos ombros, braços azulados, pernas curvadas com nadadeiras na extremidade; apaixona-se pela bela Cila, que apavorada pela súbita presença de Glauco, põe-se a fugir, pelas águas, pelas rochas, pelas cavernas submarinas.

Mas o amor do pobre deus era definitivo. Desesperado, ele se lança à perseguição da ninfa, implorando, com gritos e prantos convulsos, que lhe conceda um pouco de atenção.

Impassível às súplicas, Cila continua sua fuga. Tem por objetivo esconder-se num lugar tão secreto e inacessível que jamais o feio Glauco conseguiria encontrá-la.

Depois de inúteis buscas, o deus é obrigado a reconhecer sua derrota. Apenas algum poder superior lhe facultaria conquistar o afeto da formosa ninfa. Um poder como o de Circe , a feiticeira.

Abatido, torturado, Glauco dirige-se para a ilha de Ea, onde morava a maga, e, entre suspiros e lágrimas, roga-lhe que o ajude a conquistar a tão amada ninfa.

Circe promete atendê-lo. Entretanto, acaba enamorando-se do feio deus. Não lhe importa o aspecto horrendo de Glauco: sua riqueza de sentimentos facina-a.

A mesma dolorosa peregrinação reinicia-se. Ao encalço do amado, Circe põe-se a percorrer os mares, sem descanso.

Quando por fim seus encantos de mulher se revelam insuficientes, ela recorre a seus poderes de feiticeira. À sua habilidade de transformar pessoas em monstros.

E decide fazer de Cila uma criatura tão horrenda e repulsiva que todo o amor de Glauco haveria de mudar-se em aversão.

Sem ser vista, a maga derrama veneno nas águas de uma fonte onde a ninfa costumava banhar-se. Depois retorna para Ea e, ansiosa, aguarda pelos resultados.

Cila mergulha na água enfeitiçada. O belo corpo esguio começa lentamente a transformar-se. Monstros horrendos surgem à sua volta, com ensurdecedor alarido. A ninfa, amedrontada, procura fugir-lhes. Mas eles estão sempre a seu lado. Então Cila descobre: são parte de si mesma, nascem de seu corpo.

Desesperada corre ao encontro de Glauco e em seus braços chora longamente. Ele também lamenta a beleza perdida, mas recusa-se a permanecer com a antiga ninfa. O grande amor não existe mais.

Cila retira-se para longe. Vai viver no estreito da Sicília, aterrorizando os mortais que antes a cortejavam, deslumbrados com sua extraordinária beleza.

Na ilha de Ea, Circe inutilmente espera o retorno de Glauco. Revoltado com sua traição e crueldade, o pobre deus jamais quis visitá-la. E passou toda a existência cultivando a lembrança de uma ninfa bela e doce, que um dia se perdeu nos feitiços do ciúme.


Fonte:
http://greek.hp.vilabol.uol.com.br/cila.htm

Leia também! Assuntos relevantes