Ciência e jornalismo por trás da cortina de fumaça

Ciência e jornalismo por trás da cortina de fumaça

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Por Mauro Celso Destácio
Bomba atômica e penicilina: o que duas coisas tão díspares têm em comum? Uma destrói, a outra cura. A primeira é a imagem da morte, a segunda, símbolo da continuidade da vida, derrotando a doença. O que ambas, tão contrastantes, têm que as aproxime? A resposta pode ser dada em uma palavra: ciência. Tanto uma como outra são frutos do labor científico, na forma de pesquisas desenvolvidas com esforço e dedicação nos laboratórios, pelas mãos dos cientistas. E trouxeram progresso – ao menos material – o que pode ser dito inclusive da bomba atômica, já que a partir dela novos conhecimentos sobre a estrutura do átomo puderam vir a tona, possibilitando também benefícios à humanidade.

A ciência, portanto, é imprescindível à evolução humana, mas pode proporcionar tragédias, se os propósitos de quem a usa não visarem o bem da sociedade. O avanço científico e tecnológico em boa parte das vezes é instrumento para a obtenção de lucro, o que, em princípio, não figura algo condenável, desde que junto ao lucro financeiro advenham benesses para a totalidade das camadas sociais. No entanto, o risco de que o aspecto financeiro se sobreponha à consciência social tampouco é desprezível. Sobretudo quando a ciência responde a interesses de empresas, sem vínculos com universidades ou institutos de pesquisa, pairam suspeitas de que o dinheiro fala mais alto, em detrimento dos cidadãos.

A indústria farmacêutica constantemente é alvo de desconfianças, a começar, no caso do Brasil, pelos altos preços dos remédios encontrados nas farmácias. Ao final do ano passado e início deste, quando emergiram as discussões em torno da regulamentação da lei dos genéricos, os laboratórios produtores dos medicamentos ditos de referência (ou de marca) foram acusados de dificultar a aplicação das normas. Geram polêmica, também, os debates acerca das patentes sobre as substâncias usadas como princípios ativos dos remédios – ainda mais quando envolvem o aproveitamento de plantas e animais de áreas ricas em biodiversidade, como a Amazônia. Lembre-se, além do mais, que a indústria farmacêutica muitas vezes recebe acusações de participação em complôs que visariam obstruir pesquisas a priori contra os seus interesses. Quantas vezes, por exemplo, já se falou que a cura do câncer ou da aids já teria sido descoberta, mas não anunciada, para a conveniência dos laboratórios produtores dos medicamentos utilizados tradicionalmente, porém sem curar os doentes?

Poucas vezes, no entanto, as acusações contra essas empresas são acompanhadas de provas que as revelem verdadeiras. E não há como negar que são muitos os benefícios que os laboratórios farmacêuticos propiciam à sociedade, sem os quais a medicina seria apenas uma teoria, sem resultados práticos. O que dizer, por seu turno, da indústria do cigarro? Que contribuições ela dá à humanidade? Mantém os usuários de seus produtos no vício e não mede esforços para preservar os encantos sedutores de sua publicidade. E, mesmo que se pense esse ramo da atividade econômica como um forte gerador de emprego, o que justificaria a sua permanência no mercado, os fabricantes de cigarro não se dobram aos apelos das entidades médicas para reduzir os níveis de substâncias nocivas em seus produtos. Pode até acontecer o contrário, como bem mostra o filme O Informante (The Insider), indicado para o Oscar de melhor produção este ano.

Sob a direção de Michael Mann e com brilhantes atuações de Al Pacino (dispensa apresentações) e Russell Crowe (indicado à estatueta este ano e talvez para o próximo, como protagonista de Gladiador), O Informante, baseado em história real, apresenta um ex-funcionário do setor de pesquisas da empresa Brown & Williamson (Jeffrey Wigand, interpretado por Crowe) demitido por não concordar com a adição de uma substância cancerígena nos cigarros da B&W. Atormentado em sua consciência mas ameaçado por um contrato de sigilo assinando com a empresa (segundo o qual ele não poderia contar nada a respeito da vida interna da empresa que a comprometesse, inclusive após demissão), Wigand entra em contato com o jornalista Lowell Bergman, produtor do famoso programa de televisão norte-americano 60 Minutes, da CBS. Disposto a encarar um processo da ex-empregadora, Wigand concede uma entrevista ao programa comandado por Bergman, revelando os detalhes das pesquisas na Brown & Williamson e quebrando o contrato de sigilo. Aí começa uma outra batalha (além da que se trava nos tribunais): prestes a ser vendida à Westinghouse e temendo um processo da B&W, além da provável fuga de anunciantes (especialmente os de cigarro), a CBS ameaça impedir a transmissão da entrevista – ou pelo menos da forma como deseja o produtor, com os mínimos detalhes. A fabricante de cigarro, por sua vez, lança mão de campanha para desmoralizar Wigand.

A película de Michael Mann constitui obra exemplar para os que desejam entender o jornalismo e a ciência, além de que se infiltra nos meandros do mercado, tanto com referência às empresas de jornalismo como à indústria do tabaco, envolvendo o uso dos meios científicos para a obtenção pura e simples do lucro, em detrimento da população. Em sendo reprodução de história verídica, O Informante propicia aos espectadores, durante e após a sessão de cinema (ou de vídeo, brevemente), algumas questões intrigantes, de cujas respostas o próprio filme dá indícios, tais como:

- O contrato de sigilo entre empresa e funcionário pode ser considerado uma admissão de culpa e um indicativo de que a manipulação de substâncias danosas à saúde humana é uma prática constante, nos fabricantes de cigarro? Por que, enfim, esse tipo de acordo existe? É apenas por temor à concorrência?

- Essa prática consta de outros ramos da atividade econômica ligados à pesquisa científica – e também acobertando procedimentos duvidosos para com os interesses da sociedade?

- Como a legislação encara o contrato de sigilo, ainda mais quando implica ameaças ao interesse público? Se, por um lado, a lei exige a apresentação, nos maços de cigarros, da quantidade das substâncias existentes no produto, por que não exige maior transparência dos fabricantes quanto aos seus procedimentos?

- Em que medida o jornalismo se subordina aos interesses de mercado na prática da divulgação científica, e ao participar dos debates que dizem respeito aos temas mais prementes da ciência em relação à sociedade?

Os questionamentos não param necessariamente por aí. Cabe a todos nós refletir e, especialmente aos divulgadores da ciência e tecnologia, procurar obter respostas satisfatórias ao público. Necessário ter em mente o dever de dar prioridade sempre ao interesse de toda a sociedade, ao bem comum, denunciando os que procuram satisfazer apenas às suas escusas intenções.


Fonte:
http://www.geocities.com/revista_espiral/papiro3.htm

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