Raios X revelam buraco negro da Via Láctea

Raios X revelam buraco negro da Via Láctea

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SALVADOR NOGUEIRA da Folha de S.Paulo
Ainda não foi desta vez que cientistas observaram o buraco negro gigantesco que eles acreditam que exista no centro da Via Láctea. Mas pelo menos eles viram onde o fenômeno não está, o que já tem implicações incríveis para determinar sua existência.

Mais uma vez entra em cena o Chandra, telescópio espacial de raios X da Nasa. O equipamento, utilizado por um grupo de cientistas dos EUA e do Japão liderado por Frederick Baganoff, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), foi capaz de detectar um forte pulso de raios X emitidos por quase três horas das proximidades do centro da galáxia.

Buracos negros podem ser definidos como grandes quantidades de matéria concentradas em um espaço bastante reduzido. No caso do objeto que os cientistas acham que existe em Sagittarius A* (ponto na constelação de Sagitário onde fica o centro da Via Láctea), estima-se que a massa equivalente a 2,6 milhões de estrelas como o Sol esteja compactada em um corpo com raio de 7,5 milhões de quilômetros. O raio do Sol é 11 vezes menor que isso.


Farol de raio X
Esses objetos supermaciços, que provavelmente existem no centro da maioria das galáxias, são conhecidos por emitir grande quantidade de raios X a partir de seus discos de acreção (material que está girando em torno do centro do buraco, prestes a ser engolido). Conforme a matéria começa a descer rumo ao buraco, ela emite grandes quantidades de energia, principalmente na forma de raios X.

Curiosamente, o buraco negro do centro da Via Láctea é mais "silencioso" que a maioria, provavelmente devido à pouca quantidade de matéria atualmente presente no disco de acreção.
É dessa região que provavelmente partiu o pulso de raios X que o Chandra captou. Embora esse seja o primeiro do tipo a ser detectado, não quer dizer que ele seja raro. Por outro lado, "isso não é dizer que satélites anteriores poderiam tê-lo detectado", disse à Folha Fulvio Melia, astrônomo da Universidade do Arizona em Tucson (EUA) escolhido pela revista "Nature" para comentar o estudo, que sai publicado na edição de amanhã.

"O Chandra é singular, pois tem a melhor resolução espacial de qualquer satélite [detector] de raios X e uma excelente sensibilidade. Nenhum outro satélite teria detectado esse pulso."


Chegando perto
O pulso de 10 mil segundos estudado por Baganoff e seus colegas partiu de um local afastado cerca de 150 milhões de quilômetros do centro da galáxia _o que é, de longe, a coisa mais próxima da região central já detectada.

Mesmo antes dessa descoberta, não faltavam evidências de que já havia uma enorme massa no centro galáctico, obtidas a partir da observação de estrelas perto daquela região. Ao observar as órbitas desses astros próximos, percebia-se que havia uma enorme força gravitacional sendo exercida sobre eles, acelerando-os e atraindo-os rumo a Sagittarius A*.

Entretanto, essas estrelas estavam ainda a alguns anos-luz (um ano-luz equivale a 9,5 trilhões de quilômetros) do centro. Por isso, o espaço em que a massa central poderia estar distribuída não descartava explicações alternativas, como altas concentrações de matéria escura ou algo similar.

"O que essa descoberta fez foi reduzir essa distância por um fator de 1.500", diz Melia. Por conta dessa redução no espaço em que a massa pode estar distribuída, não resta nenhuma explicação para o que está acontecendo por lá, exceto a presença de um buraco negro supermaciço. "Neste momento, se não for um buraco negro, só pode ser algo ainda mais interessante, para o qual a física moderna não tem uma teoria."

A resposta definitiva deve surgir em um ano, quando novos estudos permitirão a detecção de pulsos simultâneos de raio X e rádio, o que, segundo Melia, eliminaria qualquer dúvida com relação à existência de um buraco negro.

A confirmação e o subsequente estudo de objetos desse tipo é a coroação da teoria da relatividade geral, de Albert Einstein, que prevê certas condições que só acontecem nas circunstâncias absurdas de colapso gravitacional existentes em um buraco negro. "Finalmente, após quase um século, estamos na iminência de confirmar uma das mais influentes descrições da natureza já feitas."


Fonte:
http://www.geocities.com/fisicattus/cie_bn.htm

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