Glasnost na URSS

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No fim deste 1987 comemoram-se os setenta anos da Grande Revolução de Outubro, como dizem os soviéticos - aquele extraordinário momento de 1917 em que Lênin e um punhado de seguidores, como que pegando a História no contrapé, forçaram passagem entre a falência do reinado dos czares e os escombros da I Guerra Mundial para invadir o século XX com um regime de tipo único no planeta. Eles queriam tudo - o perfeito regime da bonança, da justiça e da igualdade. De Lênin a Gorbachev alguma água passou sob as pontes do Rio Neva, na antiga capital, Petrogrado, rebatizada de Leningrado, e do Rio Moskva, em Moscou, para onde foi retransferida a sede do governo. Hoje, os setenta anos da Revolução coincidem com um fascinante momento de questionamento. Enquanto sob a liderança morna, quase preguiçosa, de Brejnev, os problemas eram jogados debaixo do tapete, com Gorbachev os soviéticos são convidados a encará-los. Brejnev era o líder para quem tudo corria da melhor maneira, no melhor dos mundos. Gorbachev esforça-se por denunciar o que está errado. Se há um traço principal em sua liderança, até agora, é a proclamação incessante de que há problemas e de que esses problemas poderão se transformar em perigos a curto prazo.


O que aconteceu depois
Com a adoção da glasnost, a abertura política proposta por Gorbachev, a União Soviética enfim tratou de forma aberta de seus principais dilemas: a pobreza da população, a dificuldade de se remodelar a economia, a oposição popular à guerra no Afeganistão e o desafio de manter o status de superpotência global. As mudanças foram rápidas e radicais. Em 1988, na primeira conferência do Partido Comunista em meio século, as práticas de Stálin foram criticadas abertamente. Em 1989, dois anos depois da publicação da reportagem de VEJA, acontecem as retiradas das tropas soviéticas do conflito afegão e as primeiras eleições no país desde 1917. Gorbachev também visitou Pequim e encerrou as tensões com a China, além de pressionar os líderes comunistas da Europa Oriental a adotar doutrinas similares à glasnost. O colapso do bloco soviético, no entanto, não foi evitado.

O descompasso entre o Kremlin e os outros governos comunistas da Europa e os problemas econômicos da superpotência minaram o poder de Gorbachev, que acabou enfraquecido entre os militares e a cúpula do partido - eles queriam um processo de abertura mais lento e gradual. O PIB do país encolheu 4% em 1990 e a agitação política aumentou, com os estados bálticos e a Geórgia exigindo independência. Gorbachev ainda assinou pactos históricos com os EUA e a Alemanha, aumentando ainda mais a insatisfação dos opositores do líder soviético. Em agosto de 1991, apenas dois dias antes da assinatura de um tratado para dar mais autonomia às repúblicas soviéticas, Gorbachev foi alvo de um golpe de estado. A jogada foi neutralizada em três dias, com resistência popular e apoio dos presidentes das repúblicas, sob liderança do russo Boris Yeltsin. Os golpistas foram presos, e Gorbachev, reconduzido ao poder. O comando, no entanto, já estava em outras mãos - Yeltsin e os outros presidentes passaram a governar na prática o império soviético.

Em agosto de 1991, Boris Yeltsin baniu o Partido Comunista e reconheceu a independência dos estados bálticos e da Ucrânia. Era o começo do fim da União Soviética. Em setembro, a dissolução da superpotência em quinze repúblicas foi decidida. Em 8 de dezembro de 1991, um tratado entre as repúblicas deu origem à Comunidade dos Estados Independentes, a CEI. Seu papel foi de suceder o comando central soviético e coordenar as políticas econômicas, comerciais e até militares dos países-membros. Em 25 de dezembro, Mikhail Gorbachev renunciou ao cargo de presidente da União Soviética. O cargo foi extinto. No dia seguinte, os EUA reconheceram as repúblicas soviéticas como nações independentes. Em 26 de dezembro de 1991, os escritórios e gabinetes soviéticos foram ocupados de forma definitiva pelos russos. A União Soviética deixou de existir.

Em 1996, cinco anos depois do colapso da superpotência comunista, Gorbachev se candidatou à presidência da Rússia - sua primeira disputa eleitoral numa longa carreira política. Com menos de 1% de apoio nas pesquisas de opinião pública, ele fracassou. O homem que galvanizou o mundo ao abrir o bloco soviético, é hoje um semi-aposentado quase sem amigos. Os nostálgicos do comunismo não o perdoam pelo colapso da União Soviética. Os reformistas não esquecem sua hesitação na hora de transformar a perestroika numa opção verdadeira pela economia de mercado. A maioria o vê como o culpado por todos os problemas sociais pós-soviéticos. Em setembro de 1999, Gorbachev sofreu outro duro golpe: a morte da mulher, Raisa, a dama da glasnost, vítima de uma leucemia fulminante.


Fonte: Revista Veja

Publicado na Revista VEJA em 29 de julho de 1987

http://w3.ufsm.br/mundogeo/geopolitica/more/glasnost.htm

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