Educação Ambiental


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Educação Ambiental

29/01/2012 - Rodnei Vecchia

Por Rodnei Vecchia.

Educação Ambiental: do berço à maturidade

Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.
Karl Kraus


Educar, do latim educare, significa formar a inteligência, o coração e o espírito de alguém; doutrinar, instruir.

Educação de qualidade é o passaporte para futuro, mas há diversas formas de capacitar a inteligência humana. Escolas européias de ensino médio optam por um modelo de ensino flexível, que se molda aos interesses e competências dos alunos, inclusive com seminários profissionalizantes. Nos Estados Unidos, o sistema educacional médio é ainda mais aberto, há um vasto cabedal de disciplinas e cada aluno constrói seu currículo.

Já no Brasil o currículo do ensino médio é fechado, com quinze disciplinas obrigatórias e estreita margem de manobra. O sistema de ensino brasileiro tem outros problemas estruturais, a saber: a curta jornada escolar; os altos índices de evasão; o despreparo público na gestão educacional; e a baixa remuneração dos ensinadores. Esses fatores afugentam as boas cabeças da carreira docente e jogam para a vida uma legião de jovens despreparados e com futuro comprometido.

Na década de 1960 o Brasil e a Coréia do Sul eram países subdesenvolvidos. Mas em 2011, a renda per capita coreana representava o dobro da brasileira. A Coréia praticamente erradicou o analfabetismo, enquanto 13% dos brasileiros ainda não sabem ler nem escrever. A explicação para o desenvolvimento coreano foi o investimentos maciços do Estado nos sistemas educacionais públicos de ensino fundamental e médio (carga horária de mais de 40 horas semanais). Mais de 66 % dos gastos com pesquisas são financiadas pelo setor privado, com incentivos fiscais. Criou-se um ciclo virtuoso.

Não é por acaso que na maioria dos países europeus, assim como nos EUA, no Japão e na Coréia do Sul há um alto nível de escolaridade, que beira 12 anos de estudo, enquanto no Brasil, além da deplorável qualidade do ensino público, o tempo médio de estudo está em inaceitáveis 7,2 anos.

O ensino tem que ser diverso, dinâmico e ter profundidade, qual seja, não adianta ter múltiplos e genéricos conhecimentos sem capacidade de julgamento. Governantes e planejadores podem ordenar mudanças e novas abordagens de desenvolvimento que possam melhorar o bem-estar da coletividade. Mas isto não se constituirá em soluções sustentáveis, caso a juventude não receba um novo tipo de educação.

Fazer da educação ambiental um eixo a permear todas as disciplinas, pode ser um importante passo para a transformação da escola, deste modelo muito criticado, para uma instituição que possa contribuir para a cidadania dos seus alunos de maneira ampla, que vá além da mera transmissão de conteúdo.

A educação tem que trabalhar prioritariamente com processos de reciclagem da consciência humana, antes mesmo de reciclar os recursos ambientais. Uma mente despoluída estará melhor qualificada para receber, absorver e transmitir novos conceitos e conhecimentos. E esse conhecimento só é válido se deixar uma plêiade de seguidores e ações concretas.

A maioria da população do planeta tem consciência dos problemas ambientais e da importância da preservação da natureza. O processo é complexo devido à necessidade de uma adaptação na formação de docentes para juntar os módulos ora em separado de seus campos do saber, o que representaria uma importante quebra de paradigma. O elemento ambiental é o primeiro grande elemento sobre o qual a escola pode se aprofundar ao implantar esta nova forma de estudar e compreender o mundo.

A história das civilizações é também a história da educação ambiental. Os primatas já buscavam entender e se adaptar aos processos ecossistêmicos. À medida dos riscos, tinham que criar formas de sobrevivência, conscientizar-se e educar-se quanto aos desafios. Dessa forma, após milhares de anos, acabaram por preservar a própria espécie, além de torná-la mais evoluída.

A preocupação com a degradação ambiental mobiliza um número cada vez maior de organizações sociais em busca de novas soluções e mudanças de paradigmas. Na década de 1960, a partir de movimentos contraculturais, surgiu o movimento ecológico que trazia como uma de suas propostas a difusão da educação ambiental como ferramenta de mudança nas relações do ser humano com o ambiente.

O termo Educação Ambiental foi utilizado pela primeira vez na Inglaterra em 1965, na Conferência de Educação da Universidade de Keele. A partir de então a pratica dessa educação, apesar de ainda engatinhar mundo afora, é exercida ora por românticos, ora por radicais, ora por céticos e poucas vezes de forma racional. A Conferência de Estocolmo da ONU, realizada em 1972, inscreveu o meio ambiente na comunidade internacional.

No Brasil, a educação ambiental foi formalizada em 1999 com uma lei federal que afirma que ela deve ser exercida em todos os níveis de ensino. Mas infelizmente leis são feitas e dificilmente são exercidas: ensinadores não tiveram o preparo e o reconhecimento adequados para ministrar educação ambiental, como via de regra não o têm para outras ciências importantes.

Educação ambiental é um ramo recente da educação, cujo objetivo é a disseminação contínua e permanente do conhecimento, estrutura, composição e funcionalidade do meio ambiente, a fim de preservar suas qualidades e utilizar de forma sustentável os seus recursos e serviços. É uma metodologia de análise que surge a partir do crescente interesse do ser humano em assuntos como mudanças climáticas e riscos ambientais, causados em grande parte por ações antropogênicas. Incorpora fortemente a proposta de construção de sociedades em equilíbrio com seus recursos finitos, de modo a não agredir o modus operandi do planeta.

A educação ambiental permite compreender o meio, as diferentes noções espaciais e temporais, juntamente com os fenômenos sociais, culturais e naturais característicos de cada paisagem. Permite também construir conceitos, ao correlacionar a pluralidade e a singularidade do local com o regional e o global e suas constantes transformações ao longo da evolução histórica da relação do homem com a natureza.

Surge como resposta à preocupação da sociedade com o futuro da vida. Procura despertar em todos a consciência de que o ser humano é parte do meio ambiente. Tenta também superar a visão antropocêntrica, que fez com que o homem se sentisse sempre o centro de tudo e esquecesse a importância da natureza, da qual é parte integrante.

Educar ambientalmente consiste, portanto, nos processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação de recursos e serviços naturais, bens de uso comum de todos e essencial à sadia qualidade de vida. Deve-se buscar uma perspectiva de ação holística, que propicie uma visão crítica sobre a ética e seus princípios, a construção de uma conscientização de cidadania e justiça, tendo como referência que grande parte do capital natural está se exaurindo e o principal responsável é o ser humano.

O escopo dessa educação busca desenvolver a transformação do contexto social. Implica em novos métodos de ensino de ordem trans, inter e multidisciplinar, novos saberes, que sejam proficientes e compreendam a complexa relação das espécies e seu hábitat. Precisa-se pensar em educação ambiental distanciada dos vícios de alguns sistemas políticos e econômicos, como por exemplo, a medição de riqueza de uma nação pelo PIB, em que o valor do capital natural é erroneamente desconsiderado.

O desperdício de recursos naturais, o crescimento demográfico, a pobreza, a injustiça e a violência que assola milhões de pessoas exigem monstruosas ações corretivas. Um sonho transformador pode se realizar na medida em que a realidade é uma construção histórica e dinâmica posta nas mãos dos humanos.

Ações para realizar esse sonho requererem um novo e produtivo relacionamento entre organizações, famílias, estudantes, professores. O desenvolvimento de novos caminhos e habilidades, valores e atitudes em busca da melhoria da qualidade ambiental e da elevação do bem-estar para as gerações presentes e futuras pode ser amparado por um programa mundial de educação ambiental.

A educação aprendida e discutida na escola é o mais importante caminho para reverter a imposição alienante que envolve o discurso verde. Cercado por uma série de interesses, os discursos ambientais vigentes explicitam uma disputa intensa de grupos econômicos que desejam impor novos e distorcidos paradigmas relacionados à forma de consumo. Estudar e conhecer essa nova ciência é fundamental, a fim de discernir realidade de mitos.

Há vários campos de estudo do meio ambiente. Dentre os mais importantes, pode-se destacar: água, florestas, resíduos, reciclagem, biodiversidade, solo, poluição, posturas legais, movimentos sociais, energias, aquecimento global. Por essa breve descrição é possível enxergar a dimensão estratosférica da importância dos temas ambientais na vida de cada pessoa.

A educação ambiental não pode ser tratada como mais uma disciplina, mas sim como um campo do saber que precisa ter transversalidade com todas as demais disciplinas. A questão ambiental tem que ter um foco protagonista e não marginal na educação, como a maior parte das instituições de ensino lhe destinam.

Vê-se, portanto, que a educação ambiental deve ser parte integrante da vida do ser humano, do berço à maturidade. Práticas informais de rotinas cotidianas, e a educação estruturada podem moldar personalidades para o convívio em equilíbrio com os recursos naturais e faz parte da responsabilidade de toda a sociedade.

A partir do depósito incansável da educação ambiental em consciências despoluídas, do berço à maturidade, e de sua sistematização pedagógica, desde o ensino fundamental até o superior, pode-se construir e disseminar conceitos de preservação da natureza, caminho reto para a formação de sociedades sustentáveis, sonho de consumo de povos cultos.

Texto enviado via e-mail por Rodnei Vecchia (Autor do livro "O Meio Ambiente e as Energias Renováveis") às 20:23 em 26/01/2012.





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