A querela entre antigos e modernos : a resposta de Giambattista Vico

A querela entre antigos e modernos : a resposta de Giambattista Vico

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Por Marcos Aurélio da Guerra Dantas
Segundo Giambattista Vico (1668 – 1744), a curiosidade humana ao estudar as origens e as causas da verdade, pois que esta lhe foi negada pela Natureza, criou duas ciências utilíssimas ao gênero humano, a saber: a Aritmética e a Geometria e a partir destas engendrou a Mecânica que findou por ser a progenitora de todas as outras artes imprescindíveis à humanidade1 . Deste modo, diz ele, a ciência humana nasceu de um defeito de sua mente, a saber, sua grande limitação, pela qual se encontra separado de todas as coisas e das quais não contém nada que anseia em conhecer, e visto que, não contém tais coisas, não opera com as verdades que estuda. Logo advém a grande verdade: a ciência humana não pode ser convertida no feito, logo, não interage com o verdadeiro2 .

A partir deste ponto Vico debate contra René Descartes (1596 – 1650) e outros filósofos, distinguindo-os em dogmáticos e céticos. Para o autor do De antiquissima o critério e a regra do verdadeiro é saber fazê-lo, deste modo, diz o autor, nossa “idéia clara e distinta” da mente não pode ser critério das verdades restantes, senão da própria mente. Visto que, a mente apenas se conhece e não cria, não criando desconhece o gênero ou a forma na qual se conhece. Sendo assim, a ciência humana nasce da abstração e por ela as ciências são menos certas conforme submergem na matéria corpórea3 .

Conforme o raciocínio precedente, ciências como a Física são menos certas do que a Mecânica, porque esta trata dos movimentos externos das circunferências, enquanto àquela os internos dos centros. Menos certa também seria a Moral em relação à Física, pois se esta trata dos movimentos internos dos corpos e nisto ela é correta, a Moral esquadrinha e indaga sobre os movimentos dos ânimos, que são profundos e provém em boa medida do capricho, que por sua vez é infinito4.

Nos Elementos, X Dignidade, da sua Scienza Nuova, Vico faz alusão a Descartes e seus seguidores criticando-os por não acertarem as suas razões com a autoridade dos filólogos, e vice-versa, motivo pelo qual, diz ele, teriam ficado a meio caminho da verdade. Embora o autor do Discurso do Método reconheça a necessidade de se examinar tais conhecimentos5.

Vico diz que os “dogmáticos” , e aqui está incluso Descartes, diante da Metafísica, põem em dúvida todas as verdades, não só as que se apresentam no curso da vida, como aquelas ligadas à moral, à mecânica, as físicas e as matemáticas. Àqueles ensinam que a Metafísica é a única ciência que nos dá uma verdade incontestável, e dela, como se fosse uma fonte brotariam as “segundas verdades” para as outras ciências. Acreditam eles que a Metafísica confere as outras ciências os seus próprios fundamentos.

A metafísica viquiana é figurada nos moldes da metafísica de Descartes, ou seja, é dela que se originam todas as ciências. Para ambos, na figura da árvore, a metafísica é a raiz de todos os demais conhecimentos. Porém ambas distinguem-se pelo fato de a metafísica de Descartes ser fundamentada em princípios racionais, já a metafísica viquiana tem suas origens na mente grosseira dos primeiros fundadores do gênero humano, motivo pelo qual ele a denomina de Metafísica Poética6.

Deste modo, Descartes prescreve que aqueles que desejam adentrar aos seus mistérios, que venham limpos, não apenas das crenças, mas também dos pré-juízos concebidos desde à infância pelos sentidos, visto que estes às vezes nos enganam. Devem também despir-se de todas as verdades que haviam aprendido por meio de outras ciências7.

Para Descartes a verdade primeira seria: “penso logo existo”. Vico toma um argumento dos “céticos”, que diz ser esta certeza não uma ciência, mas uma consciência e como tal é um conhecimento vulgar, suscetível de acontecer a qualquer indivíduo, não sendo portanto, uma verdade rara que necessite da meditação de um grande filósofo para ser descoberta. Com efeito, saber é estar de posse do gênero ou forma de como uma coisa se origina.

Remontando sobre as origens das concepções metafísicas, Vico toma àquela dos estóicos de que não havia outra ciência mais adequada para tratar a matéria do que a Geometria e que esta proporcionava uma pura Metafísica, ou seja, de uma potência da extensão8. Segundo Vico, nem os pitagóricos nem seus seguidores, entre os quais podemos contar Platão com sua obra Timeu, trataram das coisas da natureza por meio de números, pensando que estes eram as partes constituintes daquela. Porém tiveram que esforçar-se demasiadamente para explicar o mundo do qual estavam afastados por meio do mundo que tinham em seu interior. Sobre os estóicos devemos fazer o mesmo juízo que fizemos dos pitagóricos, pois Zenão e sua escola, pensaram que os “pontos” eram os princípios de todas as coisas9.

Conforme Vico, Descartes que foi excelente metafísico e geômetra, aderiu as idéias de Epicuro e também a seus erros nos princípios do movimento e formação dos elementos e também aos seus tropeços no que diz respeito ao vazio e a repulsão dos átomos na totalidade e assim como Epicuro, compensou-os com o êxito sobre as realidades particulares bem explicadas10.

Sobre as seguras faculdades do conhecimento, Vico diz que, o homem percebe, julga e raciocina, mas freqüentemente percebe falsamente as coisas, julga de modo temerário e constantemente raciocina de modo equivocado. As escolas filosóficas da Grécia julgaram que estas faculdades tem sido concedidas ao homem para que ele possa conhecer, e cada uma era conduzida por sua própria disciplina: ou seja, a faculdade de perceber atribuída à Tópica, a de julgar à Crítica e a de raciocinar ao Método11.

Em relação ao Método, embora seus preceitos não nos tenham sido transmitidos de modo claro pelos antigos. Para aplicá-lo às crianças bastava para aprendê-lo a própria prática enquanto se dedicavam aos estudos da Geometria. Fora desta, os antigos pensaram que se deveria confiar a ordem à prudência que não se dirige por disciplina nenhuma por isso se designa Prudência.

Conforme o autor se alguém confia em observar as coisas a partir da clareza e distinção de sua mente, facilmente se enganará e freqüentemente pensará conhecer algo com clareza, quando em verdade não a conhece totalmente. E isto por que não conhece tudo desta coisa e o que a distingue das demais. Entretanto, se à luz da Crítica recorre em todos os lugares à Tópica estará seguro de conhecer as coisas de modo “claro e distinto”, isto porque a terá examinado passando por todas as questões que sobre o tema possam ser feitas. Havendo examinado em todas as questões tópicas chegará a própria crítica12.

Na Scienza Nuova, Vico diz terem os autores da humanidade se prendido à uma “tópica sensível”, e que por meio desta as “qualidades, ou relações” concretas dos seres ou espécies eram unificadas formando “gêneros poéticos”. Vico exalta o trabalho da Providência, por ter esta preparado a mente humana com a arte da tópica, sem a qual a crítica não saberia sequer por onde começar a investigação e elaborar juízos acerca das coisas investigadas13.

Descartes parece por vezes agir de má-fé, uma vez que reconhece a importância dos “Studia Humanitatis”, pois conforme suas próprias palavras: “é bom tê-las examinado a todas(...)a fim de conhecer-lhes o justo valor e evitar ser por elas enganado”. Diz que é quase o mesmo conversar com os de outros séculos e o viajar14. Como se os outros povos ficassem estáticos no tempo, não modificando seus costumes e seus modos de pensar.

Vico acusa os cartesianos de se utilizarem de um método de filosofar, o sorites, que segundo ele, não trás grandes novidades ao conhecimento, visto que, este não torna o intelecto mais agudo, como por exemplo o método dialético-indutivo, mas apenas o torna mais apurado15.

Em sua obra De nostri temporis studiorum ratione de 1709, Vico indica os inconvenientes da Física que poderão ser evitados com o cultivo do engenho. A Geometria não aguça o engenho quando ensinada com o Método, mas sim quando esta é levada à prática por meio do diverso, do distinto, do complexo, do díspar. E por tal motivo desejava que a aprendesse não por meio da análise, mas mediante a síntese. O autor conclui: não descobriremos a verdade se não a fazemos, pois a descoberta concerne à fortuna e o fazer concerne ao trabalho.




1-Cf. VICO, Giambattista. La Antiqüíssima Sabiduría de los Italianos Partiendo de los Orígenes de la Lengua Latina [1710]. Trad. esp. Francisco J. Navarro Gómez, in: Cuadernos Sobre Vico, Sevilla - España, 2000, pp. 449-450.

2-Ibidem, p. 450.

3-Ibidem, pp. 450-451.

4-Ibidem, p. 450.

5-Cf. DESCARTES, René. Discurso do Método [1637]. Col. Os Pensadores. Trad.br. J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996, p. 67.

6-“devemos, por tudo isto, dar início à sabedoria poética a partir de uma sua metafísica grosseira”. Cf. VICO, Giambattista. A Ciência Nova [1744]. Trad. port. Jorge Vaz de Carvalho. Portugal: Edições da Fundação Calouste Gulbenkian, 2005, p. 203.

7-Cf. VICO, Giambattista. La Antiqüíssima Sabiduría de los Italianos, p. 451.

8-Ibidem, pp. 459-460.

9-Ibidem, p. 460.

10-Ibidem, p, 461.

11-Ibidem, p, 477.

12-Cf. VICO, Giambattista. La Antiqüíssima Sabiduría de los Italianos, p. 478.

13-Cf. VICO, Giambattista. A Ciência Nova, pp. 321-322.

14-Cf. DESCARTES, René. Discurso do Método, p. 68.

15-Cf. VICO, Giambattista. A Ciência Nova, p. 324.




Referências bibliográficas
Obras de Vico:
VICO, Giambattista. A Ciência Nova [1744].Trad. port. Jorge Vaz de Carvalho. Portugal: Edições da Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.
VICO, Giambattista. La Antiqüíssima Sabiduría de los Italianos Partiendo de los Orígenes de la Lengua Latina [1710]. Trad. esp. Francisco J. Navarro Gómez, in: Cuadernos Sobre Vico, Sevilla - España, 2000.

Obras de Descartes:
DESCARTES, René. Discurso do Método[1637]. Col. Os Pensadores.Trad.br. J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.
DESCARTES, René. Meditações[1641]. Col. Os Pensadores. Trad. br. J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.

Obras sobre Vico e Descartes:
BURKE, Peter. Vico. [1985]. Trad. br. Roberto Leal Ferreira, São Paulo: UNESP, 1997.
GUIDO, Humberto A. de Oliveira. Giambattista Vico: a filosofia e a evolução da humanidade. Petrópolis: Vozes, 2004.
BERLIN, Isaiah. Vico e Herder [1976]. Trad. br. Juan Antônio Gili Sobrinho, Brasília, 1982.
GUIDO, H. Aparecido de O. La niñez de Vico y la niñez en la filosofia de Vico, In: Cuadernos Sobre Vico. Sevilla: Universidad de Sevilla. 2000, pp.149-162.
MOONEY, Michael. "La primacia del lenguaje en Vico"; in. TAGLIACOZZO, Giorgio. et al. Vico y el pensamiento contemporáneo [1976]. Trad. esp. Maria Aurora Ruiz. Canedo y Stella Mastrongelo, México: Fondo de Cultura Ecumenica, 1987 pp.184 -201.
SCIACCA, Michele Federico. Historia da Filosofia [1941]. Trad. Br. Luís Washington Vita, São Paulo: Editora Mestre Jou, 1966.





Texto enviado às 11:55 - 30/06/2010
Autor: Marcos Aurélio da Guerra Dantas

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