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Os dois rapazes não fizeram por menos: Karl Marx, 30 anos, e Friedrich Engels, 28, queriam que o seu Manifesto Comunista desfilasse por todas as principais avenidas do mundo, parando para uma homenagem especial nas portas das fábricas. A apoteose, que faria tremer a burguesia, tinha um nome: revolução.
Foi há exatamente l50 anos, num 20 de fevereiro. O pequeno livro, em alemão, teve uma tiragem inicial de apenas mil exemplares, mas sacudiu consciências com seu conhecidíssimo refrão final: " proletários de todos os países, uni-vos!". Os unidos da Liga Comunista deveriam ser os trabalhadores das indústrias do século passado, que compunham uma das mais numerosas e espoliadas alas daquele desfile social. Para os conservadores de todo o tipo, o comunismo era um "fantasma", um "espectro que rondava a Europa". No Manifesto de tantas alegorias, a nobreza decadente, agarrando-se como podia ao que lhe restava de poder, formava a parte mais retrógrada. A burguesia até que merecia destaque, tal sua capacidade de mudar o mundo, transnacionalizando mercados, universalizando literaturas, derrubando fronteiras, implantando novas técnicas de produção, transportes e comunicação. A burguesia era um luxo só: "criou maravilhas maiores que as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos, as catedrais góticas". Mas, "como um feiticeiro que não controla mais as forças que desencadeou (...) produz o seu próprio coveiro: o proletariado". A ala dos barões famintos de absolutismo monárquico e dos napoleões retintos da fuligem das fábricas, que sujava os seus ternos de casimira inglesa, tinha seguidores: a classe média de pequenos proprietários rurais e artesãos e a "escória das camadas mais baixas da sociedade", o lumpezinato. Na evolução da revolução, a tendência desses setores, segundo Marx e Engels, era de se aliar à reação, ao conservadorismo. Fossem eles camponeses aferrados a valores tradicionais, fossem mendigos, desempregados, os marginalizados das cidades.
No quesito empolgação o Manifesto Comunista arrebentou. Após detectar, com coragem, que a história da Humanidade, até então, "era a história da luta de classes", comentava quase elogiosamente a revolução burguesa (o relativo fascínio com o industrialismo e com a ruptura da velha ordem se explica: afinal, "as idéias dominantes de uma época são as idéias da classe dominante"...). E anunciava, profético, messiânico, o advento de um tempo de justiça (não necessariamente de mais delicadeza, Chico Buarque da Mangueira), sem classes e antagonismos, onde "o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos".
O Manifesto era arrebatador: os proletários "nada têm a perder, a não ser suas cadeias". Essa força afirmativa, anunciando a revolução logo ali, na esquina, conquistou corações e mentes. E tinha a ver com a violenta realidade européia. Ainda cheirando a tinta, o Manifesto era brandido nas ruas rebeladas de Paris, nas cidades alemãs, nas insurreições italianas, naquela Europa da "primavera dos povos" do século XIX. Poucos imaginavam que os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade seriam substituídos pela presença da infantaria, cavalaria e artilharia... A serviço de uma burguesia sem fantasias, assustada e anti-histórica, aliada à aristocracia histérica. Contra o povo, contra a revolução, contra o socialismo, fosse ele "utópico", "pequeno-burguês", "feudal" ou "científico".
Já no quesito previsão, o Manifesto cronometrou mal e ficou perto da nota zero. A revolução não aconteceu primordialmente nos países mais industrializados; a Rússia, que só apareceu no prefácio de Engels à terceira edição (l890), iniciou, pioneira, a construção do socialismo; a classe operária, mesmo sem ir ao paraíso na economia de mercado, não assumiu plenamente sua condição congênita de revolucionária; as formações sociais não realizaram a passagem automática do capitalismo ao socialismo ; o chamado socialismo real acabou por se constituir não num estágio sócio-político e cultural superior, mas num capitalismo de estado onde a burocracia da nomenclatura passou a ser a nova forma de dominação.
Assim o Manifesto Comunista aconteceu. Vai passar? O que fica desse desfile sesquicentenário? Muita coisa: a originalidade de um texto que é, a um só tempo, panfletário e profundo, agitativo e teórico, conclamador e reflexivo. Documento e... monumento de um tempo. Histórico, datado, e permanente, já clássico, como um Shakespeare, como a Bíblia, como Dom Quixote - seus competidores em termos editoriais. A criatividade de um método de análise que, de forma clara, destacou a força do econômico e o condicionamento social dos costumes, das filosofias, das religiões, da cultura. A autenticidade de intelectuais que também eram militantes, comprometidos com as lutas sociais de seu tempo, e que por isso amargaram perseguições, exílios, censuras, incompreensões. E até a "quarta feira de cinzas" de seus autores, ao ver ( não sejamos tão materialistas...) que, no século vinte, sua rebeldia plena de razões degenerou em stalinismo, centralismo, repressão, burocracia.
Mas o carnaval de idéias novas, solidárias, o batuque que mexe com corpos solitários e apáticos, os adereços de uma sociedade feliz que o Manifesto trouxe continuam eletrizando, por que a História só tem fim com o fim da Humanidade inteira. E a comissão de frente da Mocidade Utópica do Terceiro Milênio está aí, com poetas, cientistas, operários, lavradores e esses ousados partideiros, que teimaram em portar bandeiras generosas: os bambas Marx e Engels. Continuemos sua obra inconclusa, que, apesar dos que a atravessaram, dá samba, pede povo, aposta na harmonia e nunca quis ser fechada. Abram alas!
(Texto de Chico Alencar, publicado n’ O Globo em 20/02/98)
[Autor: Chico Alencar - Lido: 136 Vezes - Categoria: Fatos Gerais]
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